Posfácio do livro aquando do lançamento em 5OU19

São páginas muito despojadas de espuma as que Maria Gaio escreve. Tão depenadas que é como se escrevesse um romance a preto e branco. Em “Sob o ponto de mira”, as palavras, buriladas e encadeadas, raramente resultam polissémicas, mas os enredos, singelos e algo bidimensionais, não disfarçam um cepticismo latente. E, no entanto, a autora conhece muito bem o cenário que nos recria e viveu de perto o tempo histórico que nos faz percorrer. Tão bem e tão de perto que, por vezes, parece divertir-se a desafiar a percepção do leitor. Acredito que quem leu este “Sob o ponto de mira” depressa se descobriu dividido. É claro que os Joões e Joanas que lêem estão muito para além dos Joões e das Joanas personagens de Maria Gaio. Mas certamente que um e outro ponto de contacto terão despontado, com o correr da prosa. Por isso, se a atitude perante o universo castrense se não rege por apriorismos, suspeito que alguns leitores sairão destas páginas com um olhar mais próximo, mais afectivo, até. Noutro plano, a leitura de “Sob o ponto de mira” é também uma subtil abordagem às múltiplas e contraditórias idiossincrasias de um país que tão mal convive com a suas Forças Armadas. Ressalta, assim, uma notória predilecção por um João e uma Joana de matriz rural, pueril mesmo. Afinal, a autora conhece bem o território sociológico que caracteriza o mais abundante campo de recrutamento da instituição militar, durante e após a guerra, antes e depois da obrigatoriedade constitucional. É visível, também, o cuidado em não estigmatizar a vida na caserna e no teatro de operações. De resto, o mais difícil, na leitura atenta, é mesmo descortinar a hierarquia e a carga psicológica que sempre se associa à gestão de ordens e de obediências, nos quartéis e fora deles. É nítida, ainda, a preocupação em desconstruir o estereótipo da mulher militar. Maria Gaio fá-lo através de um retrato cru de episódios-tipo que revelam bem o que foi o embaraço de um mundo até então alarvemente marialva. É curioso, por fim, o pudico distanciamento que o enredo assume face a um mundo um pouco à parte do interior do mundo militar: o pessoal civil ao serviço das Forças Armadas em que, curiosamente, a mulher por detrás da escritora se integrou, ao longo da sua carreira profissional. Este livro, enfim, coloca “Sob o ponto de mira” os Joões e as Joanas que, como Afonso Henriques ou Nuno Álvares Pereira, no nosso imaginário colectivo, mas também como o agora apregoado Soldado Milhões, são apenas isso – soldados de euforias e frustrações, de sonhos e desaires, de ambições contidas e de timidezes resignadas. Homens e mulheres, portanto.

Pelo Dr Paulo Marques, ilustre Jornalista, de o "Diário das Beiras" Coimbra