Quando vi que eras tu

Quando vi que eras tu, passei-me, tudo parou à minha volta, o passado arrebatou-me num turbilhão de emoções sem controlo. Que grande cara de pau eras tu para me apareceres como se fosse o dia seguinte. Penduraste-me no espaço e no tempo para mais tarde me recuperares! Na altura, eu queria estar lá abraçada a ti naquele mundo que só a nós pertencia, mas tu tinhas partido para aquela que era a tua viagem, ou ficares simplesmente no teu mundo. Eras tu que eu queria respirar, absorver numa espiral de sensações que explodiam dentro de mim. Pois é olha para ti, nem sombra do que eras, bonito, atencioso, conversador, cheio de vida e com uma grande ambição, seres médico. Agora aqui estavas implorando o amor que já não existia. Pobre de mim que tinha apenas os pedaços e um vazio enorme dentro de mim. Não, não era capaz de voltar aos braços que tanto desejara vezes sem conta e que não estavam lá quando mais precisava. Eu já tinha arrumado e compactado todos os momentos num lugar bem fundo na minha memória de forma que não viessem ao de cima lembrar-me de ti. Sabes aquela esperança enorme que cresce à medida que cresce o amor tinha sido toda recalcada, já nada sobrava a não ser pedaços todos gastos e desfiados pelo tempo. Mas tu eras meu, e sempre serás desde o primeiro momento em que te vi e a prova disso era teres voltado para mim. No entanto nunca mais atearemos o fogo que outrora nos consumia como se não houvesse amanhã. Continuaremos no espaço e no tempo, mas separados, seremos um do outro, sem estarmos juntos e sempre, sempre ansiando pela emergência do amor. Arre que até dói !

Um velho no banco do jardim

Decidira vestir-se a rigor naquele dia, espreitou o armário e retirou o fato que tinha de melhor e mais bonito e pô-lo em cima da cama. Mesmo antes de se vestir enfiou o esqueleto no armário e decidiu deixá-lo ali, não queria saber de dor, de angústia, dos seus segredos e mesmo do passado. Iria até ao jardim sentar-se no mesmo banco de sempre mas desta vez completamente despido por dentro, sem dúvidas sem receios, sem ideias, sem emoções, começar do zero, voltar a nascer. Queria despedir-se de tudo o que fora até agora, e quem sabe talvez passasse alguém que reparasse nele e escrevesse nele algo que o fizesse começar de novo. Sentou-se a olhar para fora de si mesmo, de olhos e ouvidos em alerta. E nada ... Passavam por ele como se fosse um prolongamento ou um apêndice do banco ali naquele jardim. Começou a ficar cansado de tanto esperar, e deu conta que já tinha passado muito tempo. Desejou continuar ali para sempre mesmo sozinho até que o espaço e o tempo o consumissem mas não, a vida e a morte eram completamente alheias aos seus desejos. Chegado a casa despiu-se, dirigiu-se ao armário e foi buscar o seu esqueleto e pensou a vida é mesmo feita de todos os fragmentos que às vezes são impossíveis de juntar contudo são estes que nos fazem ser aquilo que somos. Voltou a vestir-se com todas as suas vivências e achou por bem continuar a partir dali com todo o seu passado mas desta vez aberto ao futuro sem esperar que alguém o escrevesse nele. Começou por colecionar rostos, sorrisos e finalmente pessoas sem outro propósito que não fosse ser feliz.

Elevador parado

Cataplam! o elevador parou. As luzes tremeluziram uns instantes e apagaram-se. Ouviu-se uma voz masculina Opa! em simultâneo com os aiiii ! da voz feminina e a maior das descontrações da criança. Esta tirou os auriculares que trazia postos, e logo ligou a lanterna do telemóvel. Caras de pânico, olhos esbugalhados à mistura com sombras era um cenário digno de um filme de terror, tornando o momento denso e misterioso à beira dum ataque de nervos, que muito divertia o puto O homem assim que viu a luz olhou para o botão de emergência e accionou-o, ao mesmo tempo que verbalizava o seu desagrado quanto à situação. - Porra, era só o que me faltava! Ela: - eu não acredito que isto me está a acontecer! logo hoje que tenho uma audiência daqui a dez minutos! É o que faz as obras uma vez concluídas não serem obrigadas à manutenção e fiscalização, não acha ? Oh minha senhora eu sou Engenheiro, não sou construtor nem fiscal. Este tentou ficar à vontade mas não conseguiu. Mas isto não fica assim, o responsável prestará contas dos eventuais danos causados pelo atraso, pode crer! É o meu trabalho, é o meu filho que tem aulas eu como advogada, me encarregarei disso! Os ânimos exaltaram-se. O puto viu que ia sobrar para ele olhou para ambos e desatou à gargalhada ah ah ah! Eles olharam para ele, a mãe adivinhando a partida que ele preparara, e antes que esta lhe puxasse as orelhas, discretamente desbloqueou o elevador. Assim que pôde saiu em primeiro lugar retomando o jogo que interrompera, seguido da sua mãe que se desfazia em desculpas para o Senhor Engenheiro. Que chatice mais um dia de aulas, pensou o puto.

Foi por um fio

Foi por um fio que se ligou à vida, o cordão umbilical, que logo à nascença foi cortado qual prenúncio do que iria ser de ora em diante todo o seu ser. Gritou mais e mais mas ninguém percebeu o protesto. Decidiram que este grito era necessário e saudável, ela queria tanto continuar ligada àquele fio que a mantinha abrigada desta trama toda que era a vida. Todos os encontros, haveriam de ser feitos de fios, todos eles se partiriam e foi por isso que passou a não querer ligar-se. Pretende-se fio para ligar a outro e tecer algo… e aquele que lhe disse "tout casse, tout passe" tinha razão, mas foi cruel, seria preferível que partisse o fio sem dizer aqui estou eu para cortar o fio, foi cruel, muito cruel, ela a puxar daqui ele a puxar dali, não lhe restou mais nada senão desligar, partiu. Foi-se embora e não é que deixou o fio partido ali a lembrar e a doer… poderia tê-lo levado e junta-lo à sua coleção! Deve ser giro ter uma coleção de fios assim pendurados todos por cima da cama e saber a quem pertencem! Este pertence a esta, aquele ali àquela, o outro aquela outra, de vez em quando insinuarem-se na cama, brutal nunca vi coisa assim. Mas aquele bocado ficou ali e agora não sabia o que fazer com ele, sim não o ia deitar fora, porque ele era um pedaço dela! Onde é que já se viu tirar algo de nós e deita-lo fora ? O que fazer com ele ? Já não servia para religar. Lembrou-se ia enterra-lo, é verdade com todas as honras ! Imaginem chegar a uma funerária e encomendar um caixão para um fio. Ao passar o cortejo fúnebre as pessoas diriam: ali vai um fio a enterrar, um fio que prendia alguém à vida, cortaram-no ou partiu-se e morreu.

Abri a persiana e...

Abri a persiana e não augurava nada de novo nesta vida entediante. Era incrível, mas a verdade é que lá ia eu mais uma vez a passar na rua, cabisbaixa à procura do sentido da vida, do estar aqui e ali ao mesmo tempo, rasgada por dentro, sangrando por ser assim. Numa relação sujeito/objecto alguém dissera ser impossível estar à janela e ver-se a passar na rua! Mentira eu era a prova viva que isso era possível eu estava ali por detrás daquela janela e ao mesmo tempo estava do lado de fora a observar-me e a julgar-me. Qualquer acontecimento, qualquer estado lá vinha o meu eu opinar e criticar-me. Ficava exausta de me ver de fora, tentava usar todas as minhas forças para que isto não me acontecesse. mas aquela parte de mim teimava em continuar o seu caminho a pedir a compaixão de quem por ela passava ou com quem estava, chegava a ser humilhante. Gritou-me eu não quero ser a tua pessoa quero ser livre, dar-me, entregar-me a quem me quiser, não estar presa às tuas regras, como é o desejares ardentemente que as pessoas gostem de ti, que as pessoas te amem ! Não estás preparada para o não, mas lembra-te que a vida também é feita do não, do talvez, do pode ser que sim. Vamos ser como somos, com as nossas fraquezas e defeitos. Este meu querer e não querer estava mais do que certo e eu tinha que tomar uma decisão. Voei em direção ao meu sonho e fizemos finalmente uma só pessoa e com ela celebrei este estado de ser e convencer. De volta à janela desta vez abri toda a persiana para deixar entrar a luz e banhar-me nela. Tinha recuperado a outra parte de mim, a minha sombra, o meu sonho e até o meu corpo. Finalmente gostava de mim!

O Brilho não é eterno

A Estrela brilhava mais do que nunca, gravitava em torno de si própria e das outras. Corria saltava, deixava-se ir ao sabor do tempo e do espaço, enrodilhava-se na sua própria cauda e sentia-se linda e cheia de luz. Era um brilho que ia do céu à terra. Era o seu destino, iluminar o firmamento em conjunto com todas as outras que faziam parte da sua constelação. Era tão feliz por contribuir para este universo com a sua luz, que não cabia em si de contente. No entanto queria mais... Tinha todo uma via láctea para explorar e ia fazê-lo, ninguém a impediria de brilhar aqui, acolá onde quer que fosse. O seu grande desejo era conhecer a grande estrela, o Sol e iria fazê-lo. Todos à sua volta a tentaram impedir de fazer tal coisa, pois ficava a anos luz da sua casa, diziam, o que tornava a jornada muito longa e perigosa, por não saber o que iria encontrar. Lá foi saltitando e descansando aqui e acolá, de estrela em estrela até estar fora da sua constelação. O seu cabelo comprido feito manto cobria-a nas noites mais frias ou então ficava entrelaçada com as suas iguais que a iam acompanhando até onde podiam. Algumas dificultaram-lhe a jornada, punham-se à sua frente para ela não ver o caminho e lá fora na via, apanhou nebulosas que lhe toldaram a visão e a impediram por vezes na sua marcha. Evitou cair noutras galáxias, não podia desviar-se da via láctea. Depois do esforço de toda a sua vida, lá chegou. O rei sol estava ali na sua frente. Demasiado frágil da jornada nem tempo teve de usufruir da sua conquista, ele era tão poderoso, tão quente e tão brilhante que a ofuscou por completo e naquele momento inesperadamente ela deixou de ser estrela, o seu brilho que ela pensara ser para sempre, extinguiu-se, a gravidade e a radiação que a mantinha, deixara de existir