Um dia no jardim

Fui diretamente ao pequeno café que existia naquele jardim para depositar a minha mochila e aproveitei para fazer a minha caminhada matinal. Corri, caminhei e respirei o ar fresco da manhã absorvendo todos os cheiros e testemunhar do acordar das plantas, dos pássaros e dos insetos. Aquelas gotas de orvalho nas plantas brilhavam no aparecer daquele raio de sol coado pela copa das árvores. A água do lago parecia ainda adormecida, só o repuxo estava vivo, continuei até voltar ao ponto de partida. Fui parando para apreciar a beleza daquilo tudo até ficar sem fôlego. Outras pessoas iam chegando, sozinhas ou em grupo com crianças. Estas, era vê-las livres e felizes a correrem dum lado para o outro, incansáveis. Sentei-me naquele espaço de relva com uma vista fabulosa sobre o mar ao longe e fiquei ali entre a terra e o mar a gozar daquela beleza, deitei--me de papo para o ar e desta vez enxerguei o céu e o infinito. Fiz da minha mochila travesseiro e fechei os olhos embevecida. Não sei quanto tempo passou mas a verdade é que me tinha esquecido de comer. Escrutinei a mochila e retirei dela uma sandoca e vai disto. Agarrei no livro e dispus-me a passar umas horas de sossego só eu e a minha leitura. O livro tinha como título Jardim de cimento" . Antes de me aventurar nele, sentei-me a observar tudo à minha volta, as flores, as árvores, aquele murmúrio da água além. Ali um esquilo a subir pelo tronco acima da árvore num ápice, os pássaros chilreavam numa orquestra bem concertada. Borboletas aqui e ali. Era bom ter aquela companhia pois aquela era a sua casa e eles brindavam-me com a sua alegria. Estava na hora de voltar para casa, tinha passado um dia em cheio que me lavara a alma, pronta para o cimento que me aguardava.

Naquela praia

Aquele avanço e recuo das águas do mar naquela praia eram uma atração fatal, um chamamento surdo ao seu seio, um rumor denso, interminável e confuso numa mistura de querer e não querer. Ele queria estar além onde o mar tocava o céu, o seu olhar perdia-se nesse horizonte onde ele queria estar, talvez ir além dele. Aquela carta já não queria saber dela, o conteúdo era irrelevante face à grandiosidade do mar e do espaço envolvente. Rasgara-a num acesso de fúria pois sabia que o seu conteúdo seria determinante para o seu amanhã, iria cumpri-la ou esquece-la ?? Atordoado, caminhara como se não houvesse amanhã, rasgado por um grito ensurdecedor que não saía. Cansado, sentou-se e com o olhar dentro e fora de si, perdido ao longe, equacionou toda a sua vida. E aquela voz: vai, vai acaba de vez com esses sentidos sem sentido ! e logo logo: não vás, a viagem não tem retorno! E o mar a seduzi-lo … era um nada que era tudo. Sentaste-te, perdeste ou ganhaste, devias ter corrido de imediato para lá, agora esquece a carta. Ao sentares-te deixaste que este momento tomasse conta de ti e deixasse de fazer sentido. Entregaste-o às ondas e ficaste a observa-lo a por fim ao teu desejo que há um minuto atrás era imperioso. Olhou para cima e lá estava uma nuvem de algodão que desenhando um smile, feita idiota a gozar consigo. Levantou-se, agarrou na carta e prendeu-a a uma rocha e iniciou nova caminhada, não queria nem guarda-la nem cumprir o que estava nela escrito, iria deixá-la para trás. Antes de iniciar o regresso, respirou fundo e gritou, gritou até doer. Aliviado iniciou o regresso com a firme convicção que não iria ao encontro do nada mas sim do tudo em si próprio e sem mágoa.

Mal entendido

Era mais um encontro anual e a festa já começara. Alice não parava de olhar para a porta. A Maria nunca mais chegava! Queria muito vê-la, abraçá-la, e dizer-lhe o que nunca tinha conseguido dizer apesar de se conhecerem já há anos. Ganhara coragem para lhe dizer o que lhe ia na alma, era hoje. Não aguentou e perguntou se alguém sabia dela, ao que alguém respondeu: não sabes ? Ela vai viver com a Joana e anda nas mudanças o Zé até foi ajudar, esse também não vem. Imaginou a Maria e a Joana a viverem juntas e felizes e sentiu-se muito só e defraudada nas suas expetativas. Retomou a sua vida de todos os dias tentando esquecer o episódio evitando o grupo. Até que um dia deu de caras com uma amiga do grupo que acabou por a convidar a ir a uma festa que se iria realizar em casa da Maria e da Joana. Tentou arranjar mil desculpas para não ir, não suportava a ideia de conhecer o que ela supunha ser um ninho de amor nem queria partilhar da felicidade delas. Tanto insistiu que acabou por ceder. Tocou à porta e aí apareceu a Joana que muito amávelmente a mandou entrar e logo atrás lá estava ela a Maria, não conseguia tirar os olhos dela, estava linda com os seus longos cabelos negros, uma maquilhagem que fazia realçar o seu rosto e os seus olhos. Quantas saudades tinha dela, daquela magia e daquela cumplicidade que as envolvia. Maria envolveu-a num abraço tão doce que desejou permanecer ali para sempre, lembrando-lhe quanto a amava. Foi então que lhe agarrou na mão e disse vem conhecer o nosso espaço e à medida que Maria lhe ia apresentando a casa, Alice muito constrangida lá ia apreciando tudo à sua volta sem dar largas às suas emoções. Chegou a vez de conhecer o quarto, aí ao avistar a cama uma imagem lhe veio à mente, a Maria e a Joana ali a partilharem aquela intimidade que Alice tanto queria. Maria avançou e sentou-se na cama e fez sinal a Alice para se sentar ao lado dela e disse-lhe aqui é o meu quarto e o da Joana é mesmo ali ao lado, somos boas amigas, e dividimos tudo ou quase tudo com aquele olhar maroto. Maria perguntou-lhe porque não aparecia lá em casa então Alice agarrou-lhe as mãos e disse-lhe há quanto tempo eu desejei estar a sós contigo, mas tinha medo. O equívoco deixara de existir, agora podia dizer-lhe tudo o lhe ia na alma, viver com ela um amor que tanto desejara. Abraçaram-se num longo abraço antes de se juntarem à festa e mostrarem a sua união. Maria disse-lhe fica comigo fazes-me falta.

Hora de ponta

Este para-arranca punha-me todos os dias à beira dum ataque de nervos. "Pariu a galega" ou quê ?! Tu aí onde compraste a carta de condução? Ai o caralho não vais pôr-te à minha frente que eu não deixo, novo arranque… Olha adormeceu, arranca meu ! Ligo a rádio: devido a acidente grave na A X o trânsito encontra-se parado, devendo os senhores condutores optar pelos desvios indicados ao longo do percurso. Era só o que me faltava! Estava tão bem na cama! Aquele ao meu lado está cá com uma vontade de caçar os macacos do nariz com a ponta do indicador e deitá-los fora, o outro está zangado, berra tão alto ao telemóvel algo doméstico que se ouve aqui, aquela, aproveita para se maquilhar para se sentir bela e irresistível aos olhos do chefe, e aquele outro leva a música aos berros, tum, tum tum muito metal e a minha cabeça enche-se de ti e daquela dormência do amor acabado de fazer. Não vás, fica ... e eu com uma vontade enorme de mergulhar de novo em ti, naquele lugar humente e pleno de aromas que só a união dos corpos consegue produzir. Vá lá só mais um bocadinho… Quero o teu abraço para sempre e tu também o queres. Esta espera torna maior a saudade, o meu querer-te. Que pena eu ter que vir embora, olha melhor fora eu ter ficado, pois pelo andar da carruagem não vou chegar a horas e perdi o que eu mais queria, abraçar-te mais uma vez, rebolar nesses lençóis e depois um belo pequeno almoço. E depois... Chamei-te através de vídeo só para te ver despida de preconceitos e dizer-te que te amo, que desespero neste trânsito e que o que me faz ter calma é pensar que logo, logo estarei de novo aí para nos abraçarmos.

Alguém me acordou...

Ouviu-se um estalo naquela escuridão. Sem conseguir distinguir ou ver algo, tateou para sair dali. Um estalo seguido de um tiro. Sem saber o que se passava resolveu averiguar pois pressentia que alguém iria precisar de ajuda. Devagar e a medo olhou à sua volta à procura do foco, mas parecia que alguém tinha clicado no botão de pausa para criar suspense. Não conseguia sequer mexer-se, tentou pedir socorro, gritar mas a voz não lhe saía,o corpo teimava em ficar deitado e não obedecia, os movimentos arrastavam-se… Assim como alguém tinha clicado no botão de pausa naquele momento parecia que alguém tinha clicado no botão de slow motion, pois tudo se passava tão devagar. E… nada nem ninguém. Nem sangue, nem corpo algum, nenhum vestígio de crime! Sentou-se na cama estremunhado com o coração desarvorado e bateu na cabeça e apalpou-se para ter a certeza que estava vivo. Que pesadelo aquele, a sério?! Levantou-se e foi à sala, e ali estava a prova, o puto não parava de jogar, aquele jogo idiota de guerra, que matava todos os que lhe faziam frente, tinha acabado de passar de nível com mais uma morte. Porque é que não desligas o som dessa merda pá? Mais um clica, desta vez para desligar a consola. Este puto era um herói matou o inimigo e matou o meu sossego! Com um sorriso à medida do seu prazer e de quem tinha acabado de cumprir uma missão disse-me até amanhã.

Lançei os dados...

Este jogo tem apenas um adversário, a morte. Naquele dia desafiei o jogo da vida, neste tabuleiro em que se ganha, se perde ou ainda se interrompe a partida. Merda a minha partida tinha sido interrompida ! Assim fiquei à mercê daquela mão invisível que lançou os dados por mim, Deus, e de todas as outras demãos daqueles que participaram neste jogo. Fiquei suspensa daquela "coisa"que teimava em deitar-me abaixo, em ver-me partir para todo o sempre, mas o jogo não terminara. Agulhas, tubos, maca, corredor tudo numa velocidade estonteante de batas brancas, azuis, verdes num cenário de grande azáfama e muitas vozes e chegados à mesa, oops! até amanhã! Mas a manhã não chegou, ou aliás chegou menos para mim, alguém teve de continuar o que outros tinham começado sem resultado e lá continuei suspensa mais um dia. Aos poucos e muito lentamente agarrei-me à vida, incrível sonhava com quem me tinha dado a vida e havia sempre alguém que me vinha salvar. E agora ? Agora o desafio era renascer para voltar a viver, sob a vigilância e cuidado de quem estava comigo nesta partida. Finalmente eu estava cá, continuava e queria continuar usando todos os dados ao meu dispor. Lançei-os e renasci, graças ao meu querer e de todos os intervenientes no caso, e desta vez ganhei, insisti, persisti e continuei para " bingo"! "E veio-me à memória uma frase batida, hoje é o primeiro dia do resto da tua vida" .

Quando vi que eras tu

Quando vi que eras tu, passei-me, tudo parou à minha volta, o passado arrebatou-me num turbilhão de emoções sem controlo. Que grande cara de pau eras tu para me apareceres como se fosse o dia seguinte. Penduraste-me no espaço e no tempo para mais tarde me recuperares! Na altura, eu queria estar lá abraçada a ti naquele mundo que só a nós pertencia, mas tu tinhas partido para aquela que era a tua viagem, ou ficares simplesmente no teu mundo. Eras tu que eu queria respirar, absorver numa espiral de sensações que explodiam dentro de mim. Pois é olha para ti, nem sombra do que eras, bonito, atencioso, conversador, cheio de vida e com uma grande ambição, seres médico. Agora aqui estavas implorando o amor que já não existia. Pobre de mim que tinha apenas os pedaços e um vazio enorme dentro de mim. Não, não era capaz de voltar aos braços que tanto desejara vezes sem conta e que não estavam lá quando mais precisava. Eu já tinha arrumado e compactado todos os momentos num lugar bem fundo na minha memória de forma que não viessem ao de cima lembrar-me de ti. Sabes aquela esperança enorme que cresce à medida que cresce o amor tinha sido toda recalcada, já nada sobrava a não ser pedaços todos gastos e desfiados pelo tempo. Mas tu eras meu, e sempre serás desde o primeiro momento em que te vi e a prova disso era teres voltado para mim. No entanto nunca mais atearemos o fogo que outrora nos consumia como se não houvesse amanhã. Continuaremos no espaço e no tempo, mas separados, seremos um do outro, sem estarmos juntos e sempre, sempre ansiando pela emergência do amor. Arre que até dói !

Um velho no banco do jardim

Decidira vestir-se a rigor naquele dia, espreitou o armário e retirou o fato que tinha de melhor e mais bonito e pô-lo em cima da cama. Mesmo antes de se vestir enfiou o esqueleto no armário e decidiu deixá-lo ali, não queria saber de dor, de angústia, dos seus segredos e mesmo do passado. Iria até ao jardim sentar-se no mesmo banco de sempre mas desta vez completamente despido por dentro, sem dúvidas sem receios, sem ideias, sem emoções, começar do zero, voltar a nascer. Queria despedir-se de tudo o que fora até agora, e quem sabe talvez passasse alguém que reparasse nele e escrevesse nele algo que o fizesse começar de novo. Sentou-se a olhar para fora de si mesmo, de olhos e ouvidos em alerta. E nada ... Passavam por ele como se fosse um prolongamento ou um apêndice do banco ali naquele jardim. Começou a ficar cansado de tanto esperar, e deu conta que já tinha passado muito tempo. Desejou continuar ali para sempre mesmo sozinho até que o espaço e o tempo o consumissem mas não, a vida e a morte eram completamente alheias aos seus desejos. Chegado a casa despiu-se, dirigiu-se ao armário e foi buscar o seu esqueleto e pensou a vida é mesmo feita de todos os fragmentos que às vezes são impossíveis de juntar contudo são estes que nos fazem ser aquilo que somos. Voltou a vestir-se com todas as suas vivências e achou por bem continuar a partir dali com todo o seu passado mas desta vez aberto ao futuro sem esperar que alguém o escrevesse nele. Começou por colecionar rostos, sorrisos e finalmente pessoas sem outro propósito que não fosse ser feliz.

Elevador parado

Cataplam! o elevador parou. As luzes tremeluziram uns instantes e apagaram-se. Ouviu-se uma voz masculina Opa! em simultâneo com os aiiii ! da voz feminina e a maior das descontrações da criança. Esta tirou os auriculares que trazia postos, e logo ligou a lanterna do telemóvel. Caras de pânico, olhos esbugalhados à mistura com sombras era um cenário digno de um filme de terror, tornando o momento denso e misterioso à beira dum ataque de nervos, que muito divertia o puto O homem assim que viu a luz olhou para o botão de emergência e accionou-o, ao mesmo tempo que verbalizava o seu desagrado quanto à situação. - Porra, era só o que me faltava! Ela: - eu não acredito que isto me está a acontecer! logo hoje que tenho uma audiência daqui a dez minutos! É o que faz as obras uma vez concluídas não serem obrigadas à manutenção e fiscalização, não acha ? Oh minha senhora eu sou Engenheiro, não sou construtor nem fiscal. Este tentou ficar à vontade mas não conseguiu. Mas isto não fica assim, o responsável prestará contas dos eventuais danos causados pelo atraso, pode crer! É o meu trabalho, é o meu filho que tem aulas eu como advogada, me encarregarei disso! Os ânimos exaltaram-se. O puto viu que ia sobrar para ele olhou para ambos e desatou à gargalhada ah ah ah! Eles olharam para ele, a mãe adivinhando a partida que ele preparara, e antes que esta lhe puxasse as orelhas, discretamente desbloqueou o elevador. Assim que pôde saiu em primeiro lugar retomando o jogo que interrompera, seguido da sua mãe que se desfazia em desculpas para o Senhor Engenheiro. Que chatice mais um dia de aulas, pensou o puto.

Foi por um fio

Foi por um fio que se ligou à vida, o cordão umbilical, que logo à nascença foi cortado qual prenúncio do que iria ser de ora em diante todo o seu ser. Gritou mais e mais mas ninguém percebeu o protesto. Decidiram que este grito era necessário e saudável, ela queria tanto continuar ligada àquele fio que a mantinha abrigada desta trama toda que era a vida. Todos os encontros, haveriam de ser feitos de fios, todos eles se partiriam e foi por isso que passou a não querer ligar-se. Pretende-se fio para ligar a outro e tecer algo… e aquele que lhe disse "tout casse, tout passe" tinha razão, mas foi cruel, seria preferível que partisse o fio sem dizer aqui estou eu para cortar o fio, foi cruel, muito cruel, ela a puxar daqui ele a puxar dali, não lhe restou mais nada senão desligar, partiu. Foi-se embora e não é que deixou o fio partido ali a lembrar e a doer… poderia tê-lo levado e junta-lo à sua coleção! Deve ser giro ter uma coleção de fios assim pendurados todos por cima da cama e saber a quem pertencem! Este pertence a esta, aquele ali àquela, o outro aquela outra, de vez em quando insinuarem-se na cama, brutal nunca vi coisa assim. Mas aquele bocado ficou ali e agora não sabia o que fazer com ele, sim não o ia deitar fora, porque ele era um pedaço dela! Onde é que já se viu tirar algo de nós e deita-lo fora ? O que fazer com ele ? Já não servia para religar. Lembrou-se ia enterra-lo, é verdade com todas as honras ! Imaginem chegar a uma funerária e encomendar um caixão para um fio. Ao passar o cortejo fúnebre as pessoas diriam: ali vai um fio a enterrar, um fio que prendia alguém à vida, cortaram-no ou partiu-se e morreu.

Abri a persiana e...

Abri a persiana e não augurava nada de novo nesta vida entediante. Era incrível, mas a verdade é que lá ia eu mais uma vez a passar na rua, cabisbaixa à procura do sentido da vida, do estar aqui e ali ao mesmo tempo, rasgada por dentro, sangrando por ser assim. Numa relação sujeito/objecto alguém dissera ser impossível estar à janela e ver-se a passar na rua! Mentira eu era a prova viva que isso era possível eu estava ali por detrás daquela janela e ao mesmo tempo estava do lado de fora a observar-me e a julgar-me. Qualquer acontecimento, qualquer estado lá vinha o meu eu opinar e criticar-me. Ficava exausta de me ver de fora, tentava usar todas as minhas forças para que isto não me acontecesse. mas aquela parte de mim teimava em continuar o seu caminho a pedir a compaixão de quem por ela passava ou com quem estava, chegava a ser humilhante. Gritou-me eu não quero ser a tua pessoa quero ser livre, dar-me, entregar-me a quem me quiser, não estar presa às tuas regras, como é o desejares ardentemente que as pessoas gostem de ti, que as pessoas te amem ! Não estás preparada para o não, mas lembra-te que a vida também é feita do não, do talvez, do pode ser que sim. Vamos ser como somos, com as nossas fraquezas e defeitos. Este meu querer e não querer estava mais do que certo e eu tinha que tomar uma decisão. Voei em direção ao meu sonho e fizemos finalmente uma só pessoa e com ela celebrei este estado de ser e convencer. De volta à janela desta vez abri toda a persiana para deixar entrar a luz e banhar-me nela. Tinha recuperado a outra parte de mim, a minha sombra, o meu sonho e até o meu corpo. Finalmente gostava de mim!

O Brilho não é eterno

A Estrela brilhava mais do que nunca, gravitava em torno de si própria e das outras. Corria saltava, deixava-se ir ao sabor do tempo e do espaço, enrodilhava-se na sua própria cauda e sentia-se linda e cheia de luz. Era um brilho que ia do céu à terra. Era o seu destino, iluminar o firmamento em conjunto com todas as outras que faziam parte da sua constelação. Era tão feliz por contribuir para este universo com a sua luz, que não cabia em si de contente. No entanto queria mais... Tinha todo uma via láctea para explorar e ia fazê-lo, ninguém a impediria de brilhar aqui, acolá onde quer que fosse. O seu grande desejo era conhecer a grande estrela, o Sol e iria fazê-lo. Todos à sua volta a tentaram impedir de fazer tal coisa, pois ficava a anos luz da sua casa, diziam, o que tornava a jornada muito longa e perigosa, por não saber o que iria encontrar. Lá foi saltitando e descansando aqui e acolá, de estrela em estrela até estar fora da sua constelação. O seu cabelo comprido feito manto cobria-a nas noites mais frias ou então ficava entrelaçada com as suas iguais que a iam acompanhando até onde podiam. Algumas dificultaram-lhe a jornada, punham-se à sua frente para ela não ver o caminho e lá fora na via, apanhou nebulosas que lhe toldaram a visão e a impediram por vezes na sua marcha. Evitou cair noutras galáxias, não podia desviar-se da via láctea. Depois do esforço de toda a sua vida, lá chegou. O rei sol estava ali na sua frente. Demasiado frágil da jornada nem tempo teve de usufruir da sua conquista, ele era tão poderoso, tão quente e tão brilhante que a ofuscou por completo e naquele momento inesperadamente ela deixou de ser estrela, o seu brilho que ela pensara ser para sempre, extinguiu-se, a gravidade e a radiação que a mantinha, deixara de existir